quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Desvalorizada pelos fundadores, Primeira Liga terá formato diferente a partir de 2018



Texto: Paulo Galvão (Estado de Minas).
Fonte: Super Esportes 
Edição: Jorge Luiz da Silva.
Imagens: Google.com.br (Arquivo ASES)
Salvador, BA (da redação itinerante do Esporte Comunitário)



Torneio, que começou como uma boa ideia, se tornou um fardo para os clubes

A Primeira Liga poderá acabar sem chegar nem perto de atingir o objetivo que teve inicialmente

Ela surgiu com o objetivo de ser o embrião de uma liga independente, pela qual os clubes brasileiros mostrariam que têm condições de organizar os próprios campeonatos, sem a participação da CBF. Mas já na segunda edição, a Primeira Liga começa a fazer água. Desunião entre dirigentes, calendário apertado e desentendimento por causa da divisão das cotas de TV são apenas alguns fatores que estão levando a direção a, no mínimo, repensar a competição, que só tem atraído torcedores nos clássicos locais ou nacionais.


“A gente teve de improvisar bastante neste ano, pois a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) ampliou o calendário continental, a CBF fez o mesmo aqui com a Copa do Brasil, então tivemos de nos adaptar. Por tudo isso, no ano que vem deveremos fazer uma edição mais curta, com menos datas, talvez nos moldes da Florida Cup, por exemplo”, comenta o presidente da Primeira Liga, Gilvan de Pinho Tavares, que também comanda o Cruzeiro, um dos fundadores da entidade.

Dentro dessa proposta, está sendo estudada a possibilidade de organizar a competição em uma única sede, que poderia mudar a cada ano. “Podemos fazer em Belo Horizonte em um ano, no Rio em outro, no Rio Grande do Sul em outro, em algum estado do Nordeste, e assim por diante. Estamos analisando o que é melhor para os clubes e para o torcedor.”






A busca por soluções é louvável, ou a Primeira Liga poderá acabar sem chegar nem perto de atingir o objetivo. Ainda que seja compreensível que algumas falhas ocorram em uma competição tão nova e tocada por quem não tem experiência na organização de campeonatos, isso acaba abalando o prestígio do torneio e a própria credibilidade dos clubes em assumir o Brasileiro, por exemplo.


A CBF e as federações estaduais também não vêm ajudando muito. A entidade nacional marcou partidas da Copa do Brasil para a mesma data de jogos da liga independente, que precisou mexer em seu calendário para se adequar. O mesmo ocorreu com os estaduais. Várias equipes priorizaram as outras competições e utilizaram reservas e até juniores na Primeira Liga. Foi assim com Chapecoense e Joinville nos jogos contra Cruzeiro e Atlético, por exemplo. Times tradicionais também demonstram desprezo – o Grêmio não teve nenhum titular no clássico com o Flamengo, no Mané Garrincha, pela primeira rodada neste ano; nem o técnico Renato Gaúcho acompanhou a equipe em Brasília.

Para completar, a competição, que começou no mês passado, só vai terminar no segundo semestre, ficando quase quatro meses inativa por causa da falta de datas, parando em abril e retornando apenas em agosto, com as quartas de final. A final está prevista para outubro.

DESAVENÇAS Atlético-PR e Coritiba nem quiseram participar da atual edição em função do calendário apertado. Mas o que contribuiu mesmo para a saída dos paranaenses foram as desavenças na divisão das cotas de TV. “Saímos da Primeira Liga por não concordar com as regras. Não aceitamos a diferenciação e distinção entre os clubes. Queremos algo que seja bom para todos”, reclamou Rogério Portugal Bacellar, presidente do Coritiba.



  


Em nota oficial, o Coxa ressaltou que “foi um dos fomentadores da Liga, realizou reuniões em Curitiba, contatou dirigentes de clubes e federações até que ela ganhasse força e representatividade” e que “o objetivo central do projeto era fazer algo novo, com novas ideias, capaz de desenhar novos cenários na organização do esporte, prospectando uma mudança na engrenagem do futebol brasileiro. Todavia, as decisões internas da Liga e as regras de distribuição de receitas ofertadas pela emissora de televisão interessada na competição não agradaram o presidente do Coritiba e, principalmente, vão de encontro às pretensões do Coritiba na busca por um formato diferente de fazer futebol”.

SEM PÚBLICO As divergências e mudanças geraram desinteresse das torcidas. Ainda que partidas como Cruzeiro 1 x 0 Atlético, no Mineirão, tenha atraído quase 40 mil pagantes, em outros jogos o público foi aquém do que se espera. América 0 x 0 Ceará, no Independência, teve apenas 1.717 pagantes. Já Chapecoense 0 x 0 Joinville somou 6.855 na Arena Condá.





Linha do tempo
2015

Setembro – Fundada a Primeira Liga, com 15 clubes: América, Atlético, Atlético-PR, Avaí, Chapecoense, Coritiba, Criciúma, Cruzeiro, Figueirense, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Joinville e Paraná Clube. Gilvan de Pinho Tavares, mandatário do Cruzeiro, é eleito presidente e Alexandre Kalil, ex-presidente alvinegro, diretor-executivo.

Dezembro – Alexandre Kalil anuncia a saída do cargo, acusando, sem citar nomes, cinco clubes de complô


2016
Janeiro – Após acordo com a CBF, começa a primeira edição da competição.


Abril – Fluminense se sagra o primeiro campeão ao bater o Atlético-PR por 1 a 0 na final, em Juiz de Fora.

Julho – Primeira Liga anuncia que edição 2017 terá 15 clubes, divididos em três chaves de cinco
Setembro – Entidade anuncia a inclusão de seis clubes: Tupi, Atlético-GO, Brasil de Pelotas, Ceará, Luverdense e Londrina

Novembro – CBF divulga calendário de 2017 sem datas da Primeira Liga, considerando o torneio amistoso. Atlético sinaliza que não disputará e volta atrás. Atlético-PR e Coritiba desistem por não concordar com os critérios na divisão dos direitos de transmissão


2017
Janeiro e fevereiro – Primeira Liga enfrenta problemas de datas, que coincidem inclusive com as dos estaduais. Priorizando outras competições, clubes passam a usar juniores e reservas